domingo, 28 de março de 2010

Mau gosto não se discute

 Hoje ao folhear uma revista, me deparo com uma reportagem de 2 páginas sobre um indivíduo de nome Léo Santana, que todo mundo chama de "cantor" e "dançarino", tem como ídolo um indivíduo chamado de Xanddy e tido como herdeiro legítimo das "qualidades" de uma turma que se intitulava "É o Tchan". Pronto para enviar um comentário para a revista, ao abrir meu e-mail, tinha uma newsletter do Whiplash com um subtítulo de "Mau gosto não se discute". Abri o link e com grata satisfação vi tratar-se de um blog de autoria de Roger Lopes. Cada palavra dita reflete minha opinião e meu desprezo por todas essas pessoas que se dizem músicos, como o rapaz da reportagem. Me causa mais asco ainda, as pessoas que  dão trela, dinheiro e ainda perdem tempo ouvindo todas essas baboseiras.

"Dentre as coisas mais irritantes concebidas no mundo, poucas sobrepujam os malditos jargões. Frases feitas disfarçadas de profunda sabedoria e dogmas incontestes que apenas escondem no âmago a notável incapacidade de seu interlocutor de analisar criticamente qualquer situação. “Gosto não se discute”. “Política, religião e futebol não se discutem”. Então nada se discute e tudo permanece na mediocridade.
Fica-se, no entanto, a impressão de que apenas o mau gosto não é passível de discussão, pois quem se baseia em modelos culturais elevados está sempre buscando o debate. Todavia, o que força esse assunto à baila é a plena convicção de que o convívio social e princípios básicos de cidadania estão intrinsecamente ligados ao gosto particular das pessoas.
É suficientemente ruim viver sob uma ditadura midiática que empurra goela adentro tudo quanto é lixo pseudo-artístico, fabricado por uma nefasta e apelativa indústria do entretenimento, cujos artifícios para justificar a merda jogada ao público são os mais sórdidos possíveis. O ilegal e imoral jabá é só um dos inúmeros exemplos.
Pior do que a ausência de opção nos ditos veículos “democráticos” de comunicação, cuja concessão pública obriga contratualmente a destinação de percentual da grade à transmissão de programação educativa em horário nobre (o que jamais é cumprido), é o absoluto desrespeito daqueles que tem estomago para digerir tal gororoba “cultural” para com os ouvidos alheios.
Não se encontra mecanismo na Terra para fugir dessa praga infecta que inferniza os quatro cantos e tímpanos do país, pois aonde quer que se vá sempre aparece algum lazarento com distúrbio comportamental, portando um crime ecológico sobre rodas, todo equipadão com caixas acústicas de fazer inveja à Orquestra Sinfônica de Berlim para ostentar um inacreditável repertório de tortura sonora, o qual insiste chamar de música, contrariando todas as definições para essa palavra.
Tal público, irremediavelmente desprovido de bom senso, acredita piamente realizar imensurável favor à humanidade ao compartilhar a predileção pela miserabilidade artística a ele imposta, elevando em insuportáveis decibéis toda a vulgaridade de “funks” carioca (nunca a excelente black music dos anos 70), melacuecas pagodísticos intragáveis (não o samba de raiz e o partido alto de outrora), a cornomania sertanoja (nada a ver com o regional caipira), os forrós “universitários” (tentativa malfadada de sofisticar o baião) e as apelações bundísticas dos axés da vida.
Permita abrir parêntese para notar que os cidadãos com gosto refinado e erudito, independentemente da classe social, pois pobreza de espírito não está relacionada a poder aquisitivo,  como os apreciadores de ópera, música clássica, jazz, blues, soul, MPB e rock (tradicionalmente estereotipado como um som para se ouvir em volume alto), entre outros, dificilmente expõem suas preferências em ambientes não propícios, reservando-se a degustar suas paixões de forma individual, evitando sempre que possível incomodar ao próximo.
Infelizmente, os que possuem essa consciência e respeitam as mínimas normas de convívio são minoria no país, estando sujeitos à cretinice bovina dos seguidores de modinhas imbecilizantes, cuja idiotia e falta de cidadania os leva a procurar locais com concentração de pessoas nem sempre dispostas a escutar a última apologia ao crime e à putaria desenfreada, gravada por algum traficante dos morros carioca ou por detentos dos cadeiões paulistas, disparada pelo estridente celular by 25 de Março com MP3, ignorando qualquer aviso de “PROIBIDO APARELHO SONORO” ou coisa que o valha sob o pretexto de que gosto não se discute.
É verdade, mau gosto não se discute, mas sim se expurga por meio de boa educação e cultura, condimentos dos quais a culinária brasileira ainda prescinde e muito."

Autor: Roger Lopes
Fonte: http://pessimismoemgotas.wordpress.com