quinta-feira, 29 de abril de 2010

Rock - Dicas - Rock alemão



Achei esse post sobre rock alemão , que eu curto de montão (expressão antiga, não?). Os autores estão devidamente creditados e creio que é uma excelente oportunidade de conhecer os grupos alemães da fase mais prolífica da música, que é o rock progressivo. É lógico que eu não concordo com todos os comentários feitos, principalmente quanto à "clonagem" do som de bandas americanas ou inglesas da época, principalmente quanto ao Triunvirat e o Tangerine Dream, que eu considero ótimas bandas (imperdíveis). O Eloy, Nektar  e Embryo também mostram valores acima das imitações que lhes são atribuídas.  Além disso o Kraftwerk é um caso à parte no rock eletrônico, uma verdadeira aula de como se faz música eletrônica. Ou seja, os alemães fizeram uma ótima fase progressiva do rock. É para ouvir e viajar!

ROCK GERMÂNICO NO BRASIL

por André Mauro / Breno Ninini
O rock n’roll, coroamento de uma longa evolução musical na terra de Tio Sam,
dificilmente poderia gerar desdobramentos criativos no continente europeu.
No inicio dos '60, entretanto, os jovens músicos ingleses perceberam que
havia grande identidade entre o protesto candente do rhythm’ blues e a
angústia que eles próprios sentiam. Assim, mergulhando na raiz negra do
rock, os Beatles, Stones, Animals etc.começaram a sua aclimatação na Europa.

A Alemanha não participou sequer dessa evolução. Só foi tocada, mesmo, com a
eclosão do rock progressivo.  Por quê?  Ora, devemos lembrar, antes de mais
nada, que a Alemanha e o Japão foram os grandes derrotados da 2ª Guerra
Mundial.  As feridas custaram a cicatrizar.  Ambos se atiraram
compulsivamente ao trabalho - os japoneses para exorcizarem os horrores
atômicos, os boches para esquecerem os genocídios nazistas - afinal, em seu
caso, a humilhação do fracasso somou-se à vergonha pelos crimes contra a
humanidade.
Além disso, a Alemanha emergiu do conflito dividida, como um dos palcos
principais da Guerra Fria.  Nena (cantora pop), em "99 Luftballons", dá 
uma idéia do que significava o muro de Berlim para os germânicos - símbolo 
tangível da derrota, obstáculo ao congraçamento de irmãos e, pior, farol 
que iluminava os temores/presságios de uma nova e definitiva contenda 
entre as potências nucleares (pois é lá que capitalismo e comunismo se 
encontravam frente a frente; é lá que os riscos eram mais evidentes e que 
por várias vezes já se pensou estar iniciando o duelo apocalíptico).

Que tal ser jovem num país que vive em ritmo de usina e se assemelha a um
paiol, onde o fósforo aceso descuidadosamente pode mandar tudo pelos ares?
Os alemães respondem com sua arte: discos e filmes, o que mais nos chega,têm
como ponto comum uma frieza de enregelar.  A sociedade que se adivinha por
trás deles é extremamente tecnológica, espantosamente robotizada e
miseravelmente desumana.  Neles nâo há piadas.  Há uma total falta de
perspectivas, mitigada pelas drogas e por remotos sonhos de evasão.  A
estrada é um símbolo primordial - escapar para longe, onde não existem 
fronteiras nem muros (vide os filmes de Wim Wenders; vide o LP Autobahn, que popularizou o Kraftwerk).

Vias de escape

Entende-se então porque os alemães só curtiram o rock dos anos 70, o rock da raiva e do desencanto. Antes havia alegria demais, e todos aqueles projetos de mudança do "flower power". Se o psicodelismo assumiu nos EUA e Inglaterra as feições risonhas do "paz e amor", na Alemanha tudo foram bad trips. A distância entre ambos é a que vai de Woodstock a Christiane F. E, não por acaso, a primeira leva de expoentes mais notórios do rock alemão veio na esteira dos LPs de 1969 do Pink Floyd e King Crimson ("Ummagumma" e "In The Court of The Crimson King"), discos-manifestos do rock espacial. Seus atrativos: ofereciam também via de escape, já não através das prosaicas estradas de asfalto, mas sim pelas lisérgicas rotas do firmamento: e começavam a desvelar o mundo moderno como palco de dominação tecnológica(enfoque familiar aos germânicos, que já haviam vivenciado o sutil totalitarismo da sociedade regida pelo deus computador). Um dos traços mais característicos do rock progressivo alemão seria exatamente a denúncia da tecnologia. E, bons estrategistas, eles voltariam contra o inimigo as armas do mesmo: abusariam ao extremo da parafernália eletrônica, como a enfatizar a artificialidade do ambiente transfigurado pela tecnologia. Nunca se ouviu tanto sintetizador, mas também nunca os sintetizadores foram acionados para produzir sons tão desagradáveis: estática, goteiras, serrotes, o diabo. Herdeiros de grandes experimenta- dores como Stockhausen e Kagel, os alemães criariam uma música destinada quase que exclusivamente ao cérebro, e que na melhor das hipóteses servia para embalar viagens por paisagens etéreas,- na maioria dos casos, parece trilha sonora de pesadelos ou de bizarros filmes undergrounds.

Os boches estão chegando

No Brasil, o rock alemão despontou em meados da década de 70 e obteve considerável impacto, apesar de distribuido por pequenas gravadoras (a "One Way", através do selo "Sábado Som" e a "Basf") ou por uma companhia sem tradição roqueira (a "Copacabana"). Com recursos e experiência superiores, a EMI-Odeon alçou ao sucesso três grupos que lançou: Triumvirat, Eloy e Kraftwerk. A invasão foi repentina e maciça. Com pouquíssima informação prévia, foram chegando o Omega, Emergency, Thirsty Moon, Kollektiv, Wolfgang Douner Group, Harmonia, 
Cluster, Yatha Sidhra, Neu, Nine Days Wonder, Gila, Embryo e
tantos outros, obrigando os curtidores da "head music" a verdadeiras 
maratonas de avaliação.
Um esporte praticado à época era identificar o conjunto norte-americano ou
britânico que cada grupo alemão copiava.  Além de tardia, a aclimatação do
rock na Alemanha foi meio precária, dando ensejo à existência de muitas
bandas-xerox: a Jane era o Procol Harum sem tirar nem pôr; o Amon Dull II
lembrava demais o Jefferson Airplane e o Starship; o Triumvirat tinha tudo
do Emerson, Lake & Palmer.

NEKTAR

Sucesso surpreendente obtido no Brasil foi o do Nektar e suas intermináveis suítes de ficção científica. Em menos de dois anos, teve o despropósito de sete discos aqui lançados. Trata-se, na verdade, de uma banda formada por músicos ingleses que tocavam na Alemanha desde meados da década de 60. Só gravaram o LP de estréia, "Journey to the Centre of the Eye", em 1971. Suas influências óbvias eram as novelas de Isaac Asimov, "Viagem Fantástica" em particular, e o disco "Tarkus", do Emerson, Lake & Palmer (aquele cujafaixa-título toma um lado inteiro do LP e mostra as peripécias futuristas de um tatu-tanque-de-guerra). O Nektar manteve sua base de operações em território alemão e continuou sendo distribuído por uma gravadora germânica, daí merecer o enquadramento dentro do germanic-rock. Decaiu com a saída do guitarrista Roye Albrighton e se desfez em 1978, Outros discos: A Tab in the Ocean, Sounds Like This 1, Remember the Future, Sounds Like This 2, Sunday Night at London Roundhouse Down to Earth, Recycled, Live in New York, More Live in New York, Magic is a Child, Man in the Moon e Thru the Ears.

TRIUMVIRAT

A influência de "Tarkus" (e "Pictures at an Exhibition") é mais nítida ainda em "Mediterranean Tales", o disco de estréia do Triumvirat. Formado em 1968, esse grupo só conseguiu gravar em 1972. Inicialmente era um trio, o que justificava o nome, depois trocou seguidamente de formação e quantidade de elementos. O único membro constante foi Jurgen Fritz, cujo exibicionismo se casava às mil maravilhas com a pompa sinfônica do conjunto (numa enquete promovida no Brasil, entre os leitores do "Jornal de Música", Jurgen foi eleito o terceiro melhor tecladista de 1975, atrás dos não menos espalhafatosos Rick Wakeman e Keith Emerson). o Triumvirat foi outro grupo que faturou bastante no Brasil durante o apogeu das suítes classicosas (graças às peças desse tipo contidas nos LPs "Illusions on a Double Dimple", 1973, e "Spartacus", 1975). Discos posteriores: Old Love Dies Hard, Russian Roulete, Pompeia, A La Carte.

GURU-GURU

Menor repercussão obteve entre nós o trio Guru Guru, cujos discos aqui lançados (Guru Guru e Kangooroo) lembram vagamente o Pink Floyd e o Jimi Hendrix Experience no que ambos tinham de pior. Expepimental, para o Guru Guru, parecia ser sinônimo de desagradável. Seus LPs equivalem a compilações de sons irritantes. Curiosamente, um deles estampa na contracapa um manifesto contra roqueiros que "esqueceram suas raizes, dirigindo-se na direção do plástico e deixando-nos completamente frios". E, talvez por causa do espaço que o guitarrista Ax Genrich encontrava para exibir sua pouca técnica, há quem considere o Guru Guru como precursor dos grupos pesados alemães.

AMON DULL

Trabalho de mais peso foi o do Amon Dull II, apesar das óbvias semelhanças com o San Francisco Sound. O conjunto remonta exatamente ao psicodélico 1968, quando pintores, poetas e músicos conviviam num castelo dos arredores de Munique, transando todas. Esse foi o primeiro Amon Dull, de orientação mais política (no sentido hippie, anarquista, da palavra). Aí houve uma cisão: parte foi para Berlim, o resto Permaneceu em Munique, com o nome de Amon Dull II. Dele nos chegaram a coletânea Lemmingmania e os LPs Hijack e Made in Germany. Outras obras: Phallus Dei, Yeti, Dance of the Lemmings, Carnival in Babylon, Wolf City, Live in London, Vive La Trance e Minelied.

CAN

Um dos mais sofisticados grupos alemães é também, de longe, o mais soporífero: o Can, formado em Cologne, 1968, por dois ex-alunos de Stockhausen (Holger Czukay e Irmin Schmidt) e dois músicos de jazz (Malcolm Mooney e David Johnson). Os jazzistas logo debandaram, deixando o campo livre aos dodecafônicos. Sedimentou-se assim o estilo Can: repetição de figuras rítmicas e harmonias simples, enquanto se executam longas e tediosas improvisações. Tudo computadorizado ao extremo, dígno de uma danceteria para robôs. Seu LP de estréia, "Monster Movie", teve produção do próprio grupo e distribuição independente. E como sua música meditativa se presta bem para o cinema, foi constante a participação em trilhas sonoras (das quais a mais famosa é a de "O Ato Final", obra-prima de Jerzy Skolimowski); amostras desses trabalhos estão no álbum "Soundtracks". E nos LPs "Tago Mago", "Ege Bamyasi" e "Future Days" o vacalista foi Damo Suzuki, com o que o Can teve o discutível mérito de ser uma banda alemã com cantor japonês que cantava em inglês ... Outros discos: Soon Over Babaluma, Landed, Unlimited Edition, Flow Motion, Can, Cannibalism, Out of Reach e Opener.

TANGERINE DREAM

Igualmente festejado pelos intelectuais foi o Tangerine Dream, banda fundada em 1967 por Edgar Froese (guitarras, teclados) e alguns amigos. De início, copiavam o Doors e Jimi Hendrix Experience. Em 1969, após inúmeros e inúteis contatos com gravadoras berlinenses e londrinas, desfizeram o grupo. Em 1970, nova tentativa. Ao lado de Froese estavam Klaus Schulze (ex-Psy Free, tocando vários tipos de percussão) e Connie Schnitzler (guitarras, cello e violino). Levaram uma fita gravada durante ensaios à Ohr Records e viram-na transformada no LP de estréia, "Electronic Meditation", que vendeu razoavelmente bem (Inclusive na Inglaterra, através de discos importados). Schulze logo partiu, indo juntar-se ao Ash Ra Tempel, com o qual realizou dois discos, seguindo depois uma carreira solo bastante prolífica. A seguir foi a vez de Schnitzler sair, mas o Tangerine Dream (leia-se: Edgar Froese) perseveraria. Por ele passaram músicos como Christoph Franke, Steve Schroyder, Peter Baumann, Klaus Krieger, Steve Jolliffe e Johannes Schmoelling, além de participações especiais como a de Florian Fricke no LP "Zeit" (Florian viria a ser o líder de um conjunto não lançado no Brasil, o Popol Vuh). Mas o Tangerine Dream, em que se notam influências de Stockhausen e Terry Riley, foi sempre a segunda identidade de Froese, quando não assume sozinho o trabalho, como-se deu nos LPs "Ages", "Aqua", "Epsilon in Malaysian Pole" e "Stuntman". Além de "Electronic Meditation" e "Zeit", a discografia do Tangerine Dream compõe-se de: Alpha Centauri, Atem, Phaedra, Rubycon, Stratosfear, Ricochet, Encore, Sorcerer, Cyclone, Force Majeure, Thief, Exit e White Eagle.

ELOY

Com menos importância artística mas insistentemente lançado no Brasil, o Eloy foi fundado em 1969, em Hannover, pelo guitarrista e cantor Frank Bornemann, que se manteria como líder e único membro efetivo do grupo ao longo das várias formações. No início, o Eloy tocava desde Beatles até Moody Blues, mas logo Bornemann introduziu suas próprias composições. Após participar de alguns festivais de rock na Alemanha, gravou em 1973 o LP "Inside", no qual já era possível notar que o Eloy estava fortemente propenso a seguir os passos de grupos românticos da cena progressiva inglesa, como o Genesis. "Inside" se colocaria entre os dez discos mais vendidos nas paradas norte-americanas. O sucesso nos EUA abriria caminho para "Power and the Passion", considerado o melhor trabalho do Eloy. Mas, por volta de 1976, uma violenta crise interna quase destrói o conjunto, que muda constantemente de integrantes até janeiro de 1982. quando a volta do baterista Fritz Randow andou sendo apregoada como um renascimento do Eloy. Outros LPs: Floating, Dawn, Ocean, Eloy Live, Silent Cries and Mighty Echoes, Colours, Planets, Time to Turn e Performance.

KRAFTWERK

Outro grupo muito apreciado no Brasil (o que mais teve lançamentos nacionais, entre todos os alemães) é o Kraftwerk, formado pelos multiinstrumentistas Ralf Hutter e Florian Schneider, egressos do Organization - conjunto de final dos anos 60, muito influenciado pelo Pink Floyd. No início da década de 70, Ralf e Florian abandonaram o Organization e constituíram o Kraftwerk, cuja tradução literal é usina de potência. O novo grupo recebeu acolhida e orientação do mago Conrad Plank, proprietário de um estúdio que ficava no meio de uma refinaria de óleo em Dusseldorf, o qual depois se dedicaria a alguns grupos significativos de new wave (entre os quais esteve o Ultravox). Os dois primeiros discos da dupla, sem títulos específicos, mostram influências do Pink Floyd, bem como de Stockhausen, Terry Riley e John Cage. Mas já no LP "Ralf Und Florian" se nota um prenúncio do trabalho mais acessível que viria logo a seguir. A partir de Autobahn, o grupo se torna quarteto, com a entrada de Wolfgang Flur e Klaus Roeder (depois substituído por Karl Bartos, quando o Kraftwerk chegou à formação que mantém até hoje). O conjunto abriu caminho para muito do que se fez em matéria de música eletrônica a nível de rock, preparando o advento do tecnopop; tem em David Bowie e Brian Eno grandes admiradores. Outros discos: Radio-Activity, Trans-Europe Express, Exceller 8, Man Machine, Computerworld e Tour de France.